Quando começarão a morrer os fotógrafos?

Com essa pergunta desconcertante, o mestre Flavio Damm encerrou seu comentário postado nesse blog. Agradeço a todos que o visitaram e deixaram seus textos ou responderam direto através do e-mail. Dentre eles quero destacar três, esse do Flavio Damm e outro do Ripper que desejo reproduzir no corpo do blog e o terceiro do Renan Cepeda, que destaco apenas uma frase...."A pauta é gerada sob a libido das vendas de anúncios, inclusive para criar tendências de comportamento, visando novos tipos de consumo". Cepeda fala da dificuldade que os editores de fotografia dos jornais têm em atender à demanda comercial do jornal, mesmo com um grande staff de fotojornalistas. Achei a expressão "libido das vendas de anúncios", perfeita para descrever o estágio atual de nosso jornalismo diário.
Uma outra questão que devo corrigir é ter citado os textos do Eder Chiodetto e do presidente da ARFOC/SP, Rubens Chiri, sem ter publicado os mesmos. Faço isso agora.
Para encerrar quero retomar a questão levantada por Flavio Damm, que é a relação entre jornalistas e comunidades pobres, excluídas. Na década de 80, quando um carro de reportagem chegava em uma favela era recebido quase em festa, pois a comunidade enxergava naquelas pessoas uma oportunidade de se expressar e desabafar. Hoje são recebidos com indiferença, raiva e até ódio. O impressionante é que isso nunca foi pauta de assembléia de nenhum sindicato, ARFOC ou qualquer entidade de representação. O que a frase de Flavio Damm dá a entender é que jornalistas e repórteres fotográficos começam a ser comparados em atitude aos policiais militares que sobem morro para matar e espalhar bala perdida. Parece que além de balas perdidas, existem pautas perdidas que acertam em cheio a dignidade dessas pessoas.E essa discussão continua parada no ar.

A seguir os textos do Eder Chiodetto e Rubens Chiri.

EDER CHIODETTO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A mostra "Fotojornalismo 2006", em cartaz no Centro Cultural São Paulo, é sintomática da crise por que passa a representação visual da notícia na contemporaneidade.
Estão expostas cem fotografias de 83 fotógrafos ligados à Arfoc (Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado de São Paulo), realizadas no último ano.
Copa do Mundo, os ataques do PCC, eleições, rebeliões e flagrantes de cenas do cotidiano dominam a mostra.
É notória a busca desenfreada pelo impacto por meio de ângulos inusitados, planos distorcidos e uso de cores primárias. Tais maneirismos muitas vezes fazem a imagem se descolar do fato que ela deveria representar, resultando em mera ilustração, oca de conteúdo.
Essa é a fórmula perversa que tem dominado a mídia nos últimos anos, na qual a notícia se converte em produto, e a imagem que a reporta, em mera embalagem. É a mesma lógica que permeia a relação produto e imagem na publicidade, na qual a plasticidade, o exotismo e a atmosfera ficcional suplantam o valor intrínseco do produto. Há uma confusão perigosa entre "vender" e reportar um fato noticioso.
Isso espelha também a falta de investimento da mídia nas fotorreportagens, em matérias de fôlego que vão além do relato factual. Esse fator se soma a uma falta de investimentos -por parte dos repórteres-fotográficos- em pautas próprias, visível na repetição enfadonha dos temas. Se chove, a foto da rua alagada. Se faz calor, o mergulho na represa.

Novos tempos
Numa época em que todos se transformaram em repórteres-fotográficos em potencial com câmeras portáteis e celulares que fotografam, esse tipo de fotojornalismo tem seus dias contados. Já é comum o fotógrafo chegar num acidente e amadores terem feito a foto no momento mais propício e disponibilizado na internet.
Ao repórter-fotográfico de Redação, restam pautas de agenda e maneirismos para que sua fotografia se destaque em meio a imagens publicitárias que lhe roubam espaço.
Por questão de sobrevivência, é hora de os profissionais recuperarem o espaço perdido para contar histórias em profundidade. Não adianta mais estetizar a chuva, o incêndio, a rebelião ou clicar políticos em situação constrangedora.
Os amadores estão em todas as esquinas fotografando, exercitando o olho e se tornando os repórteres visuais do seu tempo. Os fotojornalistas seguem encurralados e ainda não deram resposta a essa nova era.


Única "crise" do fotojornalismo ocorre nas relações de trabalho
RUBENS CHIRI

ESPECIAL PARA A FOLHA

Um ônibus queimado e um policial estático -a imagem nos remete à inércia do poder público frente à violência. O cassetete enverga no braço de manifestante durante assembléia de professores -tal qual a educação é massacrada. A silhueta de jovens boleiros nos confins da Paraíba -sonhos de anônimos por uma vida melhor no país do futebol.
Em contrapartida, Ronaldinho rola com uma fã -constelação se perde no ufanismo. São leituras, divagações, crônicas visuais, retratando fatos e histórias -fotojornalismo.
Essas são algumas das cem imagens que contam um pouco da realidade do Brasil e do mundo hoje e que compõem a exposição "Fotojornalismo 2006 - Fatos e Histórias do Cotidiano", produzida por 83 repórteres fotográficos e organizada pela Arfoc-SP (Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado de São Paulo). O material será incorporado ao acervo da Associação dentro de um projeto de documentação iniciado há alguns anos.
Em crítica publicada no último dia 27 na Folha, intitulada "Exposição reflete a crise que o fotojornalismo enfrenta hoje", o autor, Eder Chiodetto, com base no trabalho apresentado na exposição, afirma que cada vez mais o fotojornalismo aproxima-se da fotografia publicitária e perde a sua função. As fotografias expostas por si só desdizem tal afirmação.
Há, sim, uma crise, mas no jornalismo como um todo. Especificamente no fotojornalismo, a crise não reside na produção, mas, sobretudo, na precarização das relações de trabalho. Na substancial redução dos postos de trabalho. Na desenfreada produção industrial das mídias impressas, com rígidos horários de fechamento, amarras editoriais e projetos gráficos que não tratam a fotografia como informação, e sim como mera ilustração.
Se hoje suspiramos por uma foto de Robert Capa -um ícone do seu tempo-, não devemos desacreditar em futuras referências, que terão seu valor reconhecido ao seu tempo. Afinal, cada repórter fotográfico coloca em sua foto seu olhar, sua cultura, suas emoções, sua conduta ética. E esse conjunto tão peculiar deve ser respeitado e valorizado.
RUBENS CHIRI é repórter fotográfico e presidente da Arfoc-SP

 



Escrito por Carlos Carvalho às 12h25
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Textos do Flavio Damm e do Ripper

Texto do Flavio Damm:
Amigo Carlos, perfeito e parabéns pelo blog, boa idéia., vamos conversar. Há um fato novo no fotojornalismo do Rio: fotógrafos estão sendo visualizados pelas comunidades porque, em geral, sobem os morros quando a polícia também sobe. As comunidades os estão considerando "urubus", buscadores da desgraça que os cerca, do que ocorre por obra de uma polícia violenta.Em seis dias foram mortos 12 PMs aqui no Rio. Quando começarão a morrer os fotógrafos? Abraço do Flávio Damm.
Texto do Ripper:
Carlos Carvalho,  ler seus textos faz bem, como fez bem participar de festival em Porto Alegre. Apenas umas colocações para pensarmos. O jornalismo e os jornalistas estão distantes da pobreza brasileira. Acho mesmo que não conhecem a pobreza . Conhecer é reconhecer valores. Nosso jornalismo na verdade tem sido nocivo a pobreza brasileira. Acho que faz muito tempo a postura do que é publicado, divulgado tem sido muito de conter, frear mudanças sociais. Cada vez mais as áreas pobres vem sendo segregadas, divididas da cidade formal, estigmatizadas como violentas. A esmagadora maioria da população de uma favela nada tem a ver com criminalidade alguma mas as notícias versam sobre violência, quase que só violência e quase sempre sobre uma ótica que tem como fonte de informação a polícia. As comunidades são abandonadas como fonte de informação. Não se mostra a dignidade , a alegria, a sensualidade, o trabalho, a solidariedade, a criatividade que existe nas áreas pobres urbanas.



Escrito por Carlos Carvalho às 12h24
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A "crise" no fotojornalismo

Em artigo escrito para a Folha de São Paulo e publicado no dia 27 de janeiro, o fotógrafo Eder Chiodetto faz uma crítica ao conteúdo da exposição Fotojornalismo 2006, promovida pela ARFOC/SP e que ocupou o espaço do centro Cultural São Paulo. Ao que parece alguns fotógrafos não gostaram da intensidade da crítica, nem dos problemas levantados e apontados por Chiodetto, naquilo que para ele configura um sintoma evidente da “crise” por que passa o fotojornalismo. Um outro texto de “resposta” assinado pelo presidente da ARFOC /SP rebate as questões levantadas por Chiodetto, sem, no entanto, aprofundar os problemas de linguagem apontados por ele.

A princípio tendo a concordar com o texto de Chiodeto mas gostaria de levantar uma questão que raramente é abordada quando o assunto é “crise no fotojornalismo”.

A insatisfação com o que acontece nas redações dos jornais e revistas nacionais não é nova e foi o que motivou a criação das agências independentes ao final da década de 70 e por toda a década de 80. A pauta política era óbvia em um país vivendo sob uma ditadura militar e posteriormente a mobilização da sociedade civil para a sua reorganização. “Escolher” a própria pauta e buscar a realidade vivida pelo país era a pedra de toque de toda uma geração de foto jornalistas que mudou a relação entre fotógrafos independentes e empresas de comunicação. Mas o que aconteceu de lá pra cá? Como bem enfatiza Chiodeto, o jornalismo saiu de uma visão de indústria de base, onde a informação da sociedade era algo que pertencia mesmo à sua cultura e entrou na linha de produção da tecnologia de ponta. O espaço publicitário avançou sobre a notícia e o resto todos nós sabemos. Para essa indústria, é necessário que a “notícia” se descole do fato (ou seja, da realidade), para se tornar espetáculo, e assim “vender”. Como nota Chiodeto existe uma confusão perigosa entre vender notícia e levar informação. Assim, é de se perguntar: onde foi parar o fotojornalismo?

Esse questionamento inicial remete ao ponto que quero explicitar. A quem pertence o fotojornalismo? À Folha, o Estadão, Veja, IstoÉ? Quando falamos em fotojornalismo, o único espaço possível de veiculação de “informação” é na chamada grande mídia? O fotojornalismo não pertence a ninguém, é um instrumento, um conjunto de regras que servem para sistematizar uma informação e levar a um público maior. Essa ferramenta não pertence à chamada grande mídia, que, aliás, como bem afirma o fotógrafo Anderson Schneider, é nas empresas de comunicação que não vamos encontrar fotojornalismo. Não é possível falar de fotojornalismo sem falar de jornalismo, pois os princípios de apuração são os mesmos; e se o jornalismo se descola da realidade então não existe mais, desculpem a provocação, o “instante decisivo”.

Se a aceleração provocada pela tecnologia de ponta mudou drasticamente o mundo da comunicação ela também se disponibilizou para que fotógrafos encontrem a “sua mídia”, pois na verdade essa foi a grande mudança, não é preciso mais de nenhum jornal para se fazer fotojornalismo e levar informação à sociedade.E, sejamos francos, alguém aí sente falta dos jornais e revistas?

Para finalizar, dois sintomas:

1) O fotógrafo brasileiro João Kehl, ganhou o primeiro lugar da categoria Ensaio de Esporte”, do World Press Photo 2007, sem jamais ter publicado sua matéria em um veículo brasileiro.

2) Em recente mesa de debate, durante o FestFoto de Porto Alegre, ao responder uma pergunta que fiz sobre qual a mídia que mais o atrai na hora de mostrar um trabalho finalizado, e ali eu coloquei como premissas uma exposição ou um livro, o fotógrafo Cristiano Mascaro me surpreendeu dizendo que gosta muito do formato de reportagem em uma revista. É de se perguntar o que fazem revistas que não contratam o Cristiano Mascaro.



Escrito por Carlos Carvalho às 19h26
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Carlos Carvalho

Para os que não me conhecem, sou fotojornalista há 25 anos. Carioca radicado em Porto Alegre, sou da Agência Brasil Imagem, editor da revista IsoPixel de fotografia documental e um dos coordenadores do FestFotoPoa - Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre. Criei esse blog movido por algumas iras com prestadores de serviço (celular, bancos, etc) mas decidi que é melhor falar de coisas interessantes. Vamos falar de fotografia, meio ambiente e o que mais vocês toparem.

Escrito por Carlos Carvalho às 19h24
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Bem vindos

Sejam bem vindos. Pretendo usar esse espaço para conversar e trocar idéias. Mas também trazer informações e principalmente, receber o retorno de vocês.

Escrito por Carlos Carvalho às 19h21
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